Lioness in the World

Saturday, June 17, 2006

Lioness in the World

Conto I
Escrevi uma série de contos numa aula de uma disciplina fantástica que tive, não só por ser de escrita criativa, mas também e sobretudo por ter sido dado por um homem excepcional a todos os niveis, o Professor Urbano Tavares Rodrigues.

Este é o primeiro conto que vou partilhar aqui!

O vento soprava de mansinho levando consigo os aromas de Primavera, do campo, das flores, do sol até; passou por cima de Simão muito ao de leve e ele despertou do sono em que mergulhara algumas horas antes. Ao abrir os olhos sentiu-se confuso e hesitante. Onde estava a bela jovem com quem estivera a conversar? Onde estava a aquele rosto suave de tez morena e olhos negros profundos que o tinham hipnotizado? Estava certo de que ela lhe tinha pegado pela mão e servindo de guia, o levara pelas muralhas e as dunas. Dera-lhe a provar aquilo de que mais gostava, tâmaras e chá de canela. Tudo tão agridoce como ela própria. Fechou os olhos e ouviu uma voz doce: “Simão! Simão! Estás a ouvir-me?” As suas pálpebras abriram-se muito lentamente e pouco a pouco o rosto debruçado sobre ele ganhou cor e forma. Era ela! Pensou Simão, sem saber o que pensar ou dizer.
Fitaram-se longamente sem dizer nada, como se estudassem os traços um do outro, memorizando-os para os conseguir reproduzir algures, mais tarde. Por fim ele moveu a sua mão até ela, acariciou-lhe o ombro, sentiu o calor da sua pele e respirou profundamente com um sorriso nos lábios, aliviado, mais do que isso, satisfeito por ela ser real. A mão de Simão desceu com suavidade até ao pulso, os seus dedos entrelaçaram-se nos dela e ela retribuiu o sorriso de satisfação. Ele estava meio sentado, encostado a uma palmeira, e ela de joelhos a seu lado com as mãos na areia. Simão entreabriu os lábios prestes a dizer alguma coisa, mas Sahida pousou-lhe a mão sobre os lábios. Aproximou-se da orelha dele e murmurou: “Então era aqui que tu estavas! Pensava que tinhas desaparecido, que não te voltava a ver!” Acariciou-lhe o rosto e os lábios com as pontas dos dedos e, depois de lhe beijar o lóbulo da orelha esquerda, disse: “Não gostas de mim?” Simão agarrou-a num gesto envolvente e deitou-a ao colo dizendo; “Não, adoro-te!” Sahida sorriu e ergueu-se para o beijar. Anda, quero mostrar-te uma coisa. Mais uma vez, ou talvez não, percorreram as ruas da cidade em tons quentes de pedra e terra. Falaram com os vendedores de frutas, viram os camelos e observaram as pessoas. Era de facto um grande mercado, o maior dos últimos meses; havia tecidos de muitas cores, artigos em metal, tapetes, sapatos, os cheiros sobrepunham-se uns aos outros, deixando Simão inebriado. Pegando-lhe pela mão, Sahida subiu umas escadas de degraus bem pequenos e gastos, que pareciam a Simão não ter fim. Passo a passo andavam em círculo, sempre para cima até chegarem a uma espécie de varanda de onde se via toda a cidade, toda a agitação e para lá disso, o deserto, as palmeiras do oásis bem mais à frente e muito ao longe o sol quase a desaparecer, afundando-se nas areias quentes.
“É lindo, simplesmente maravilhoso! Indescritível, tão perto e simultaneamente tão longe, tão quente de dia e agora parece que tudo arrefece de repente! Tens frio, Sahida? Perguntou-lhe ao olhar para trás. Mas nada. Não havia nada, nem ninguém atrás dele, só o deserto em toda a volta, uma música começava a soar, sem se perceber de onde e num instante, num abrir e fechar de olhos, viu-se à beira do riacho, rodeado de pinheiros e a música bem mais perto, bem mais alta.
“Simão, não vens partir o bolo? As pessoas estão todas à tua espera!”
Simão abanou a cabeça, sacudiu as calças com as mãos e começou a andar em direcção à música, tão familiar agora. Conseguia distinguir um violino no meio das violas e agora uma flauta. Pouco depois viu o jardim, as cadeiras e o baloiço na árvore, a mesa enorme, coberta de tantas coisas.
“Ah, estavas aí!” Simão sentiu o calor de mãos nas costas e sentiu-se a ser empurrado com delicadeza. “Ora aqui estamos nós!” Ao voltar-se para a voz que correspondia aquelas mãos, deparou-se com os olhos negros profundos, a tez morena, o sorriso sedutor e só conseguiu dizer. “Afinal não era um sonho, és mesmo tu, és mesmo real!” disse baixinho. “Claro que sim, Simão! Quem pensavas que fosse? Não estás em ti hoje!”
“Parece que não, talvez, não sei, devo ter pensado que era bom de mais para ser verdade, que só podia ser um sonho, produto da minha imaginação.”
“Deve ser cansaço”, retorquiu ela, acariciando-lhe o rosto. “Parabéns Simão!”
“Obrigado amor!”

(27 Abril 2005)

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