Lioness in the World

Sunday, July 30, 2006

A Morte é algo que nos marca!



Lembrar, esquecer; esquecer, lembrar. São como dois lados de uma mesma moeda. O tempo vai passando, muitas vezes bem mais depressa do que gostaríamos e há muito que parece escapar-nos por entre os dedos.
Não consigo esquecer quase nada, sobretudo rostos e cheiros, simplesmente não me é possível. Por vezes é reconfortante, outras apenas necessário, algumas ainda doloroso.
Zoya era o nome que gostaria de ter tido, se o tivesse podido escolher. Tinha alma de artista. Sentia-se quase sempre à margem, insatisfeita e incompreendida. Desenhava e escrevia poesia como poucos, apesar da tenra idade da pouca experiência de vida. Os professores teciam-lhe com frequência elogios e ela sorria-lhes, mas essa alegria, esse momento de satisfação era fugaz, muito curto, simplesmente pouco, para ser reconfortante ou motivador. Era apenas isso, um elogio, ou melhor, uma constatação de facto.
Três anos não é muito para conhecer alguém, mas também quanto tempo é necessário para se conhecer alguém a sério? Isso também não é importante! Sinto que a conheci, melhor do que a maioria dos que se cruzaram com ela ao longo dos dezoito anos que completou. Como amigas que fomos e somos chorámos e rimos juntas. Estudámos e passeámos, partilhámos experiências e anseios, ... tantos projectos, tantos desejos que ficaram por concretizar. Tantos sonhos que não tiveram oportunidade de ganhar forma. Quis ser tudo e nada, quis fugir e desaparecer de tudo e de todos, fez uma tentativa insignificante. Só queria atenção e amor, queria saber se se preocupariam com ela, se partiriam à sua procura. Acabaram por fazê-lo, de facto, mas não de forma muito convincente, segundo ela.
Tentei colmatar essas falhas, aproximá-los de alguma forma, mas hoje parece-me que foi tudo quase em vão. Dizer que foi inútil, seria demasiado; mas senti-me frustrada, impotente, culpada, quando partiu de vez.
Pergunto-me ainda hoje muitas vezes porque é que teve de ser assim. Como é que não o pude evitar. Como é que ninguém percebeu. Fiquei furiosa e desiludida com os pais dela, com os outros amigos, até com os médicos e com Deus. Só conseguia pensar que era um desperdício, uma injustiça alguém que deu tanto de si, ter recebido tão pouco em troca. Não se tornou famosa ou apenas conhecida. Não chegou a ser estilista ou pintora, professora ou sequer aluna universitária.
Pior que tudo, não chegou a ser mãe como tanto desejava, apesar de o recear em todo o seu íntimo. Durante muito tempo adormeci e acordei a pensar nela, em cada gesto, em cada palavra. Continuo a comover-me de cada vez que folheio os desenhos e os poemas que me escreveu e as dedicatórias que me fez. Hei-de lembrar-me sempre do seu rosto de boneca de porcelana, a sua pele tão branca que se tornava levemente rosada, com as adversidades da vida; aqueles olhos verdes manchados de castanho e os eus cabelos loiros, quase brancos em algumas madeixas. A voz suave ao telefone, o caminhar inseguro, tantas pequenas coisas que me custa recordar, tantos pormenores que não consigo esquecer...

4 de Abril 2005

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